Artigo: A velha Faculdade da Ribeira vai ser restaurada


Carlos Roberto de Miranda Gomes
Membro Honorário Vitalício da OAB/RN
Aluno da 10ª turma/1968

No radioso domingo de Páscoa, tomo conhecimento de que a Reitora Ângela Paiva pretende restaurar o prédio na velha Faculdade de Direito da Ribeira, para ali instalar um projeto de Centro de Referência dos Direitos Humanos e o Museu do Advogado.

Argumenta a Reitora que será desenvolvido naquele prédio o maior projeto de extensão da UFRN.

A notícia não poderia ser melhor, pois há muitos anos vários segmentos da Universidade, da Ordem dos Advogados e de ex-alunos lutam para a recuperação daquela Casa que tanto honrou a história do nosso Estado, dando provas de lutas democráticas e resistência aos tempos de ditadura, onde tantos professores e estudantes ofertaram o brilho de erudição que ressoam no espírito da tradicional Ribeira.

“Até que tudo cesse, nós não cessaremos” era uma placa que foi retirada e perdida no tempo e, mesmo que não reencontrada, merece que outra seja reposta em seu lugar, para marcar os tempos gloriosos da juventude estudiosa do Direito em nossa cidade.

As demais placas, que marcam a passagem de muitas pessoas idealistas estão jogadas em algum depósito da UFRN, posto que retiradas dos corredores do CCSA e nunca mais recolocadas, num atentado à memória dos estudantes e professores, mas que agora serão resgatadas para um lugar de honra.

Sei, por conhecimento próprio, quando por três vezes adentrei no prédio centenário projetado pelo Arquiteto Herculano Ramos, que é plenamente restaurável toda a sua estrutura, guardando-se a mesma distribuição das salas da entrada, das aulas, das reuniões da Congregação dos Professores, do setor administrativo, da cantina, do salão onde jogávamos “ping-pong”, do local do barbeiro, do DAAC, do pedestal do busto de Amaro Cavalcanti, que poderá a ele retornar, do auditório do primeiro andar, da biblioteca formada com desvelo pelo Professor Otto de Brito Guerra e das suas áreas externas, com suas grades importadas de Portugal, tendo ao alto esculturas francesas.

Tenho a certeza de que essa providência da Reitora marcará o retorno daquele pedaço à vida útil da cidade, com lançamento de livros, pesquisa de documentos históricos, exposições, para onde devem ser colocados os arquivos da polícia política, que já foram liberados para consulta.

Um pouco da sua história:

“ANTIGO PRÉDIO DO GRUPO ESCOLAR AUGUSTO SEVERO

HISTÓRICO

O prédio foi construído em um momento de verdadeira revolução ocorrida nos métodos educacionais. O então Governador Alberto Maranhão, pelo Decreto de 29 de abril de 1908, reformou a instituição primária, inspirado na concepção sonhada pelo Senador Pedro Velho. Nascia então a Escola Normal, os grupos escolares (nas escolas municipais) e as escolas mistas. Estabeleciam-se métodos e renovava-se o ambiente educacional.

O Grupo Escolar Augusto Severo foi o primeiro construído no Estado, dentro do novo modelo educacional preconizado. Sua inauguração data de 12 de junho de 1908. O ato inaugural foi assistido pelo Governador Alberto Maranhão, altas autoridades, representantes do Ateneu Norte-Riograndense e da Escola Normal, além de diversas famílias da sociedade natalense.

Pelo Decreto 198, de 10 de maio de 1909, o Grupo Escolar Augusto Severo foi convertido em Escola-Modelo. Em 02 de janeiro de 1911, foi instalado no mesmo prédio a Escola Normal. Em 1914 surgia a Escola Isolada Noturna, todos eles funcionando naquele prédio que assim se desdobrava para servir à educação da juventude.

Em 1952, o antigo prédio do Ateneu Norte Riograndense foi desativado, passando aquele tradicional estabelecimento de ensino a funcionar no Grupo Escolar Augusto Severo, até 1954, ano em que foi inaugurada a nova sede daquele Ateneu, na Avenida Campos Sales, à época do Governador Sylvio Pedrosa.

No dia 21 de abril de 1956, a Faculdade de Direito de Natal, instalada há pouco mais de um ano em uma sala do Ateneu, transferiu-se para o prédio que abrigava o Grupo Escolar Augusto Severo. A faculdade lá permaneceu até a sua transformação em Curso de Direito, em 1974, quando ocorreu sua transferência para o Campus Universitário.

No dia 04 de setembro de 1973, o professor Edgar Ferreira Barbosa, sob intensa emoção, proferiu “Aula da Saudade”, abordando o tema “Navegar é preciso”. O professor concluiu a sua aula com a frase:

“Iremos na melhor companhia, todos numa esquadra idealista e compreensiva, levando nossa ajuda leal e consciente, pois navegar é necessário. Muito embora o velho porto não nos saia da memória.

E repetiu um poema de Manoel Bandeira:

‘Vão demolir esta casa
Mas meu quarto vai ficar
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências,
Vai ficar na eternidade
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar !’

Fonte OAB-RN

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