Carta Aberta de estudante, sobre o reajuste no preço da passagem de Natal


Natal/RN, 1 de setembro de 2012.

Prezados cidadãos natalenses,

Quero parabenizar a ação da nossa juventude engajada, por estar comprometida e disposta em lutar pelas injustiças que acometem nossa cidade, como foi o aumento da passagem de ônibus para R$ 2,40. Todos participantes diretos e indiretos devem ser aplaudidos de pé e aclamados por toda cidade de Natal.

Antes de tudo, quero fazer um desabafo. Na quinta à noite (30/08) compartilhei um convite ao movimento de obstrução das vias públicas de trânsito o qual ia ser concentrado próximo ao Via Direta em contestação ao aumento da passagem. Certa pessoa (a qual não convém citar o nome) veio me questionar por “inbox” “o que você tem haver com isso? você nem anda de ônibus =P”. Eu fiquei indignado com esse modo de pensar e respondi “E daí? Quer dizer então que para eu lutar contra o racismo preciso ser negro? E para lutar contra a homofobia é preciso ser gay? E para lutar por uma saúde pública melhor preciso ser um enfermo? E para lutar contra a pobreza, preciso ser um miserável? Deixe de pensamento medíocre.”. E é isso mesmo pessoal! Às vezes não nos sentimentos diretamente prejudicados e o conformismo é nossa resposta. Isso não é justo!

Vocês sabiam que com esse aumento temos assumimos um ranking da 2ª maior passagem do Nordeste? Só perdemos para Salvador (que é R$ 2,80). A notícia do aumento só foi anunciada pela Secretaria de Mobilidade Urbana (SeMob) na segunda a noite, pegando todos de surpresa na terça. A portaria que regularizou o aumento foi a nº 047/2012-SEMOB/GS, assinado pelo secretário municipal de Mobilidade Urbana, Márcio José Sá Dantas Luz. Dentre os argumentos foi o reajuste do salário dos operadores, o preço do diesel e os tributos cobrados (ISS e ICMS).

De acordo com o juiz, Geraldo Antônio da Mota, o pedido feito pelo SETURN não poderia ser buscado via ação mandamental, por não se tratar de direito líquido e certo, já que para apreciação será necessária produção de provas, inclusive perícia contábil, aptas demonstrando a necessidade de reajuste das passagens de ônibus. “Dessa forma, verificando a insuficiência de documentos técnicos e fáticos que respaldem as alegações dos requerentes, concluo que o conjunto probatório não induzem a um juízo de verossimilhança favorável à pretensão liminar”, disse o magistrado. (Fonte: TJRN). Ou seja, vocês (SEMOB e SETURN) estão agindo na ilegalidade!!!

O senhor diretor de comunicação da SETURN (Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de passageiros do município de Natal), Augusto Maranhão, ressaltou que “O reajuste não passa de um analgésico para controlar a dor. O câncer é muito mais profundo”. Sinceramente eu acho que câncer maior, senhor diretor, é a escravidão do meu povo natalense ao transporte público. Vamos a um cálculo bem simples. Vamos supor um cidadão comum natalense (o qual ganhe um salário mínimo e utilize duas passagens por dia). Levando em consideração que ele também utilize o ônibus nos finais de semana, ele gastará R$ 144,00 com transporte público. Pouco? Isso dá mais do que 23% do salário do cidadão! (Isso se ele não gastar mais passagens por dia).

Deixou-me rubro de vergonha a agressão de alguns policiais militares aos estudantes manifestantes. Jovens, os quais lutavam pelos direitos usurpados dos seus pares foram atacados com cassetetes, gás lacrimogêneo, spray de pimenta e bala de borracha. O Coronel Francisco Araújo (comandante geral da PM), na sua entrevista com RN TV o senhor disse claramente “Vivemos em um Estado Democrático de Direito. E a polícia teve que manter a ordem.” E também que “A polícia está preparada e não irá tolerar”. Eu fiquei me perguntando: qual seu conceito sobre Estado Democrático de Direito? Com todo o respeito, Coronel, foi o aprendido nos seus livros da época da Ditadura Militar? Sugiro que acrescente também nos seus vocábulos a palavra “cidadania” e “liberdade de expressão” que é bem diferente do de “baderna” com o qual o senhor comparou o movimento. São apenas questionamentos e conselhos, não me acusem de “desacato à autoridade”. 🙂

Naquela multidão estão presentes futuros juízes, desembargadores, promotores, advogados, defensores públicos, procuradores, delegados, oficiais, médicos, engenheiros, arquitetos e deveras outros profissionais. Não tem nenhum bandido! Senhores policiais, sugiro que identifiquem seus verdadeiros inimigos. Garanto que estão em luta com pessoas que lutam até por vocês.

Por fim, quero dizer que os nossos célebres estudantes estavam ali por lutar por justiça! Para trazer melhorias para o seu povo, inclusive para os próprios policiais que os atacavam. São gritos de liberdade que ecoam nas ruas de Natal, e não “zoadas”. Isso é união, e não “tumulto”. Nós somos revolucionários, e não “rebeldes”. E sempre que houver injustiça lá nós estaremos, pois “até que tudo cesse, nós não cessaremos!”.

Atenciosamente,
Emerson Bezerril

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14 comentários sobre “Carta Aberta de estudante, sobre o reajuste no preço da passagem de Natal

  1. João Paulo Dantas disse:

    Palmas para o autor! É um orgulho saber que temos jovens que ainda se preocupam com seus pares, incitam a luta e não aceitam a usurpação dos direitos.

  2. Carol disse:

    muito lindo o que foi escrito. Mas nós jovens precisamos de mais proteção, pois quando vamos aos protestos queremos mostrar a população que todos nós estamos sendo explorados, mas infelizmente, algumas vezes os próprios cidadãos não reconhecem e acabam nos tratando como “vanda-los” e rebeldes sem causa, e a policia enquanto nós damos flores a eles, em volta recebemos violência e atitudes desumanas.

  3. Mário Segundo disse:

    Concordo com tudo até a parte das manifestações dos estudantes. Entendo que uma manifestação deva chamar a atenção para surtir efeito, mas a partir do momento em que essa manifestação prejudica apenas a população inocente, ela perde todo o valor. Os manifestantes precisam trazer a opinião pública para o seu lado com atitudes que não façam o trabalhador que, além de ter que arcar com o aumento da passagem, ainda ter que passar 2, 3 horas a mais dentro de um ônibus lotado.

    E eu concordo com o comandante da polícia militar em um ponto: pessoas que tocam fogo na rua, depredam e picham patrimônio público são sim “baderneiros”. Pessoas que vão para protestos com o rosto escondido não vão pensando em fazer coisa boa não. Podem até ter sido casos isolados, mas toda a manifestação se torna responsável por estes atos.

    Acho que a forma correta de protestar é usando a inteligência, e não a força. Como exemplo eu cito a ideia que surgiu nas redes sociais de todo mundo pagar com notas altas de modo a acabar com o troco dos cobradores, obrigando-os a deixar o indivíduo a usar o ônibus de graça. Outra forma de manifestação mais organizada seria se aliar a órgãos não políticos, como a OAB por exemplo, e exigir as contas que comprovem a necessidade do aumento das passagens.

    Concluo com um dos dizeres mais malhados que existe: “O seu direito termina quando começa o do outro”.

  4. Marcio disse:

    Mário, deixe de conversar bosta. O movimento fui um sucesso! Tivemos apoio popular e conseguimos manter o preço antigo! Com sua ideia seguramente não obteríamos êxito. Fique bem. E se for andar de onibus, lembre-se que está pagando menos pro nossa causa.

    • Mário Segundo disse:

      Sim, o movimento conseguiu que os preços baixassem por chamar a atenção da mídia sobre o assunto em um ano de eleição. Entretanto, a queda do preço da passagem (que é ingenuidade acreditar que vá durar) não revoga os atos de vandalismo que foram praticados nem o prejuízo causado à população durante o protesto.

  5. Thiago disse:

    Em tempos de gente pensando como o rapaz aí… é fundamental cobrir o rosto. O estado concentra o monopólio da violência… eles podem quebrar geral as pessoas, podem grampear seu telefone, podem ameaçar sua vida… mas cobrir o rosto, oh meu Deus – faz o bandido.
    Em tempos de gente pensando como o rapaz aí… me pergunto pq ele não marcou uma reunião com a SETURN, pq não escreveu um email pedindo pra que não aumentem as passagens, pra que não retirem ilegalmente a integração (eles sim, jogando no mato a legislação e nem por isso a polícia os chamou de baderneiros, bandidos, desmanteladores da ordem pública). Pq não tenta numa conversa amigável convencer aquela gente a não aumentar ainda mais seus lucros?? Hum queimar um onibus? Que bobagem… Os empresários fazem isso e nem tem problema nenhum ;p http://www.blogdodanieldantas.com.br/2012/09/revoltadobusao-empresarios-do-seturn.html?m=1

    Em tempos de gente pensando como o rapaz aí, é que se afirma a criminalização aos movimentos sociais, é que lutar se faz crime.

    Gostaria por fim de lembrar que não temos em Natal transporte público não, são empresas, tem donos, o transporte natalense é todo privado. Mas existe toda uma intencionalidade de que o olhemos como se público fosse, talvez daí todo o entranhamento dos donos das empresas na máquina pública :p

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