Nota do Programa Motyrum sobre a mudança de nome


“Não há paz, quebram até as flores.”

 

“E de guerra em paz

De paz em guerra

Todo o povo dessa terra

Quando pode cantar

Canta de dor.”

 

Os homens e as mulheres se fazem sujeitos ao pronunciar o mundo, essa pronúncia se dá através da palavra maciça que é práxis, e, por isso, transformadora. A existência humana não se faz no silêncio, ao contrário, se faz na palavra que pronuncia o mundo, e que, ao ser pronunciado, volta aos pronunciantes, dessa vez, problematizado e assim exige uma nova pronúncia. A palavra, portanto, não é só palavra. A palavra é ação, é reflexão. É pronunciando o mundo que o homem e a mulher se fazem históricos, vivem o mundo não como coisas, mas como sujeitos que transformam o mundo quando o problematizam e agem. Portanto, dizer o mundo, pronunciá-lo, não deve ser privilégio de alguns poucos, mas sim direito de toda a humanidade.

Desse modo, dar nome às coisas toma um significado ainda mais forte. Um nome não é apenas som ou grafia, ele carrega consigo concepções de mundo, opções políticas, traz cultura, identidade. Um nome nunca será capaz de indicar a essência da coisa e nem de dizer a coisa em abstrato, pois a coisa só tem sentido na proximidade com os homens e mulheres.

 

Nomear um coletivo, portanto, não é mera exigência estética, está relacionado com a identidade do grupo, com a sua ação. Por isso, os homens e mulheres que vem construindo conjuntamente o Programa de Educação Popular em Direitos Humanos Lições de Cidadania sentiram a necessidade de dar uma nova pronúncia ao coletivo. “Lições de Cidadania” já não é o nome que identifica a nossa práxis e, por isso, não é suficiente para a construção de nossa identidade.

O nosso coletivo nasceu como um meio de combate às opressões no mundo, e tem o objetivo de transformar a universidade e o saber produzido por ela em um instrumento dos oprimidos e das oprimidas, pois fazemos a opção política pelos esfarrapados e esfarrapadas do mundo, que têm sua palavra silenciada.

 

Embora o termo cidadania possa ser ressignificado, como Augusto Boal busca fazer em suas obras, é preciso fazer um contorcionismo hermenêutico para justificar o “Lições” de Cidadania de uma maneira progressista e libertadora. O nome do programa vinha representando o aspecto mais tradicional do termo, trazendo a ideia bancária de que alguém ensina lições de como ser um bom cidadão ou como tornar-se um cidadão capacitado para outrem, diferente da construção coletiva de novos saberes que o programa entende como pressuposto fundamental para uma educação libertadora. A própria ideia de Lição de cidadania já remete que só é cidadão aquele que aprende a ser e que, portanto há cidadãos e não-cidadãos – aqueles que não se adequaram às normas cívicas.

 

O Programa Lições de Cidadania tem avançado muito nos últimos anos: ampliou seus campos de atuação; conseguiu acolher estudantes e professores de diversos cursos; conta com a participação ativa de 6 advogados que passaram pela extensão popular; tem extensionistas ocupando diversos espaços críticos e atuando diretamente com os movimentos sociais. O programa mudou, avançou, cresceu em pensamento e atuação critica. Mas o nome continuava. O nome e o símbolo – uma família heterossexual, formada por pai, mãe e filho – reforçando ainda mais a descontextualização entre as ações que o programa vem desenvolvendo e o nome com o qual se apresentava.

 

Somos latino-americanas e latino-americanos e tivemos nosso direito de pronunciar o mundo negado por processos encobridores que remontam à invasão de nosso continente até aos regimes totalitários apoiados pelo imperialismo em nome da “Democracia”. Somos ainda Carlos Marighella, Juliano Siqueira, Dermi Azevedo, Mailde Pinto, Hélio Vasconcelos, Gregório Bezerra, Maria Laly, Maria Diva, Nivaldo Monte, Frei Tito, Mery Medeiros, Sabino Gentilli, Clara Camarão, Marcos Guerra, Aton Fon, Zumbi, os heróis e heroínas potiguares de 23 de novembro de 1935, somos xs militantes por um mundo mais justo e xs oprimidxs que a história teve a ousadia de encobrir os nomes. Somos San Martí, Simon Bolivar, Tapuias, Potyguaras, Guaranis.

 

Por isso precisávamos de um nome, de uma identidade, de uma palavra popular, feminista, negra, indígena, da juventude, dos oprimidos, dos condenados da terra, condenados do mundo e da história, que indicasse nossa opção lúcida e consciente pelos explorados e exploradas, pela libertação das correntes opressoras. Assim, escolhemos um novo nome que simboliza o nosso comprometimento com a luta histórica dos povos que tiveram sua identidade roubada, assim como ainda ocorre hoje em todos os espaços em que atuamos. Favelas, Campos, Presídios, comunidades indígenas, etc. Escolhemos um nome que significa mais que a união de pessoas, mais que um simples multirão. Talvez ainda mais que um “tamo junto”. Escolhemos um nome que simboliza a resistência, a luta e a revolução.

 

Desse modo:

 

“Aos Povos do Terceiro Mundo

que vencem o fratricídio

 

À mulher

camponesa e proletária

que suporta o uxoricídio

 

À juventude

Do mundo inteiro que e rebela contra o filicídio

 

Aos Anciões

sepultados vivos nos asilos.”

 

Somos, a partir de agora, Programa Motyrum de Educação Popular em Direitos Humanos

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