Dos Interiores: sobre a Coração de “Reis do Milho” no São Pedro na Balança 2014


Dos Interiores

 

Quando entrei na universidade, contavam os corredores do setor I que a tribo homossexual do curso de direito se reunia em espaços próprios, reservados, às vezes até mesmo longe da cidade, necessitando confiar à dimensões a possibilidade expressar sua sexualidade. A violência era contada, em regra, com o tom de estranheza de quem refere-se a uma excentricidade. Preconceito eufêmico.

 

Por certo não era, e até hoje não é, somente a discriminação existente no seio do curso que impossibilita os estudantes homoafetivos de sentirem-se à vontade para ser o que são em sua plenitude. Os cordéis que limitam suas liberdades vem de variadas mãos.

 

Contudo, o curso de direito pode-se dar à sutil vaidade de dizer que, quanto a tal tipo de preconceito, o cordel existente em sua espacialidade vem se fragilizando pouco a pouco. Domingo passado, a tradicional festejo junino do Glorioso coroou, por aclamação, uma casal homoafetivo como seus reis do milho. A sociabilidade que antes só se apresentava em particulares interiores, foi reconhecida e aplaudida na celebração de um interior público, o interior rural, agrícola, campesino que o São João e o São Pedro na Balança nos memoram. Não quero aqui cometer injustiças históricas com gerações de estudantes passadas, mas acredito que não terá ocorrido gesto de gênero e do gênero de tamanho precedente simbólico nos espaços públicos festivos de nosso curso. Se estiver errado, estarei alegre em corrigir-me.

 

Passa-se, além, a mensagem da resignificação da tradição junina. Se o São João é a festa do interior do milho, da canjica, da fogueira, da religiosidade, do balão e das vestes matutas, também sabemos que o São João é a festa de um interior nordestino ainda preconceituoso e marcado por formas de opressão que guardam contornos específicos. Em regra, patriarcal, oligárquico, beato por aparência, e no qual a homossexualidade transita entre a patologia e o pecado. Nesse último quesito pouco mudou dos tempos em que Guimarães Rosa descrevia o que sentia Riobaldo ao estar, aparentemente, apaixonando-se pelo “seu” Diadorim.

 

Se a tradição não é aquilo que herdamos do passado, mas sim aquilo do passado que o presente escolhe herdar, o São Pedro na Balança decidiu não perpetuar as tradições reproduzidas com vigor em nossos interiores e que impossibilitam homens e mulheres de viverem sua sexualidade, seu afeto. Assim, fazendo, convidou estes homens e mulheres com a mensagem de que, em seus espaços de sociabilidade, todo amor poderá dizer o seu nome.

Túlio Jales

Discente do curso de Direito da UFRN

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s