Entrega da comenda Djalma Maranhão ao professor Juliano Homem de Siqueira


        Natal, 08 de agosto de 2014.

 

Entrega da comenda Djalma Maranhão ao professor Juliano Homem de Siqueira pelo Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti, gestão Cirandar 2014/2015.

 

O mundo

 

Um homem da aldeia de Negu, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

– O mundo é isso, revelou, um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas, fogueira de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam, mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade, que é impossível olhar para eles sem pestanejar. E quem chegar perto, pega fogo. [Eduardo Galeano]

 

É com a sabedoria das palavras do escritor uruguaio, que inicio a entrega da comenda Djalma Maranhão, a convite do nosso querido Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti. Agradeço pois à instituição discente por ter me iniciado, pela organização do movimento estudantil, no conhecimento e na prática da educação política, das disputas presentes nos conflitos da humanidade, em luta por direitos.

Viemos nessa aula magna falar de Direito e Constituição, de nossa terra e do nosso povo, a América Latina e sua latinidade, que por séculos espoliada, foi terreno de massacres em um cenário de domínio pelos do Norte. E se querem dominar um povo, caros colegas, expropriem suas riquezas, silenciem suas tradições e façam com que acreditem na falsa dádiva que é a presença do opressor.

Ora, a história não é serva de homens e mulheres de mãos atadas, nunca fomos bons selvagens, corre em nossas veias a luta e a resistência de levantes populares. Nos levantamos contra a persistência de sociedades divididas segundo o paradigma do “muito para poucos, e pouco para muitos”, ou não vivemos ainda em um mundo profundamente desigual? Sim, é o capitalismo e sua sociedade de classes com suas marcas.

Eis a tragédia do nosso quintal, onde encontramos os inimigos a enfrentar no terreno da política, uma elite vil, forjada nas coleiras do escravagismo da casa grande e  senzala, opositora das universalidades e cliente da seletividade. O século XX reservou ao Brasil duas ditaduras, a do Estado Novo, e a Civil-Militar.

Em 01 de abril de 1964, a marca do intervencionismo norte-americano dá apoio e articula um golpe, retirando da presidência, João Goulart. Aqui está presente um homem Siqueira, resistente aos anos de chumbo, de cuja vida incendeia com tamanha vontade, que é impossível olhá-lo sem pestanejar. E a quem chegue perto, pega fogo.

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Juliano Homem de Siqueira, filho de Íris Meira Lima de Siqueira e do também professor Esmeraldo Homem de Siqueira, ingressou nesta casa como aluno vindo do Colégio Atheneu Norte-Riograndense. Já em seus poucos 12 anos de idade se integra ao movimento estudantil e se reconhece na causa dos movimentos sociais populares, na luta por uma sociedade justa e fraterna, defensor da causa socialista.

Vindo a integrar os quadros do Partido Comunista Brasileiro, é de cujo destino daqueles por quais não se escolhe, se enfrenta, põe-se como opositor intransigente ao regime de então. Assim que universitário e acadêmico do curso de Direito, Juliano ingressa na luta armada, e na clandestinidade, em disputa por fragilizar e derrotar os governos militares que se seguiam. Preso e torturado, uma vez solto retorna à UFRN, e conclui o curso de Direito.

Já vereador em 1996 pelo Partido Comunista do Brasil, o hoje militante e presidente do diretório municipal do Partido dos Trabalhadores da cidade de Natal, o nosso professor desta egrégia casa, o camarada Juliano em breve se aposentará. Seguirá nessa sina de não ter tempo de ter tempo, na luta por uma sociedade comprometida com a justiça social por outros caminhos, mas com o mesmo horizonte. Como mesmo diz, já não tem idade para trair as próprias utopias.

Juliano, os estudantes do glorioso curso de Direito não teriam comenda melhor para entregar-lhe do que a de Djalma Maranhão. Um homem público, ex-prefeito de nossa capital e de um governo municipal popular, reconhecido pela campanha “de pé no chão também se aprende a ler”, um perseguido pela ditadura militar. Diz-se que em seu atestado de óbito, exilado no Uruguai, consta que morreu de saudade da terra Natal.

Isso posto, receba esta comenda, dada aos homens e mulheres pelo reconhecimento nas destacadas ações em defesa da democracia, da probidade no poder público e da dignidade da pessoa humana. Sigamos na certeza de que se muito foi feito, muito ainda há de se fazer, os problemas não param e os sonhos continuam, porque “até que tudo cesse, nós não cessaremos”.

Victor Darlan Fernandes de Carvalho Oliveira, estudante do Curso de Direito/UFRN.

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