Eu Não estou em cima do Muro – 23 de Setembro – Dia da Visibilidade Bissexual


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Ao longo das nossas vidas vivemos presos a exigências sociais e somos direcionados pela ideia de uma heteronormatividade, ou da heterossexualidade compulsória: se for uma menina, vai gostar de rosa, terá corpo magro e feições delicadas e se relacionará com homens. Dessa forma, construímos uma espécie de “carta de conduta” sobre o que se espera do homem e da mulher e encaixotamos pessoas definindo como, quando e onde elas devem se expressar.

A partir do momento que a orientação sexual desvia daquilo que se era esperado, sofremos grandes retaliações e opressões estruturantes, o que permeia toda a comunidade LGBT. Somos incompreendidos, taxados e não obstante a violência simbólica diária, sangramos nas ruas devido à construção de uma cultura homofóbica relacionada também à opressão de gênero.

Dentro dessa realidade, a população bissexual transpira dores perversas, já que por diversas vezes não somos reconhecidos nem mesmo dentro do próprio movimento LGBT. Por muitas vezes esquecidos, vistos como fetiche e considerados verdadeiros indecisos diante dos nossos desejos, somos postos em uma fase de transição, como se estivéssemos ganhando coragem ou algo do tipo. Queria deixar claro que não existe um termômetro para medir o quão bi uma pessoa é, e muito menos uma preferência obrigatória por algum dos sexos. Basta que se sinta atração (seja ela de que forma for) por pessoas de ambos os sexos.

Assim, nessa combinação de opressões, é importante que no dia de hoje, reconheçamos as diversidades existentes e como o fato de ser um LGBT não anula a opressão nem muito menos exclui a possibilidade de ser um reprodutor de preconceitos. Não somos metade de nada, não somos uma parte, não somos uma indecisão, nem hétero, nem lésbicas, nem gays: Somos bissexuais.

Alguns mitos que devem ser desconsiderados:
– Não estou passando por uma confusão mental
– Não é duvida
– Não sou mais promiscua por ser bi
– Não tenho o melhor dos dois mundos
– Não tenho que ter preferência
– Não sou metade lésbica nem metade hétero
– Não quer dizer que não quero me comprometer
– Não é só uma fase
– Não estou fazendo isso para chamar atenção
– Não estou ganhando tempo para me assumir lésbica/hétero

Se você já pensou isso alguma vez na vida: É BIFOBIA!

Contra toda e qualquer forma de opressão denuncie ao Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti (CAAC) através de nossa ouvidoria: caac.ouvidoria@gmail.com

Brena Monice – Bissexual – Estudante do 5º período do Curso de Direito, Diretora Administrativa do CAAC (Gestão [R]existir) e integrante do Núcleo Escritório Popular do Programa Motyrum de Educação Popular em Direitos Humanos.

 

Nota do CAAC sobre os Cortes no Orçamento da UFRN


Estamos vivendo um momento difícil na conjuntura política e econômica-social do país. O Congresso se mostra cada vez menos representativo dos interesses do nosso povo; por outro lado, pressiona cada vez mais, não apenas por medidas conservadoras do status quo, mas por verdadeiros retrocessos em vários âmbitos da vida das cidadãs e cidadãos brasileiras/os. Já há um tempo, viemos percebendo – e sentindo – essas novas configurações que as modificações delineiam, criando limites onde, há pouco tempo, tivemos uma expansão. O último período representou, incontestavelmente, uma expansão do ensino superior e técnico, facilitando o acesso de milhares de pessoas às universidades. Entretanto, sabemos que entrar na universidade é só o primeiro passo, e não é suficiente.

A estratégia adotada pelo governo federal nos últimos tempos foi positiva, em certa medida, mas também limitada. Os programas de incentivo ao acesso a universidades privadas nunca foram o ideal – queremos mais universidades públicas!- embora tenham tido importância fundamental no contexto em que estávamos. Já nas universidades públicas, desde às cotas ao ENEM, vemos programas essenciais ao avanço do acesso ao ensino superior; entretanto, este não foi acompanhado de uma real política de permanência e assistência estudantis. A UFRN, por exemplo, tem um dos restaurantes universitários mais caros do Nordeste, que ainda falha em atender à enorme demanda, as bolsas de apoio técnico são priorizadas em relação às de extensão; ou seja, esse espaço que antes era restrito a uma parcela mínima da população e negado ao povo ainda precisa passar por mudanças para satisfazer os anseios e necessidades das/os estudantes.

Já ultrapassada a negação, devemos avançar rumo à afirmação. Ao povo, já não é negado educação como antes o era, mas, para além disso, é necessário que esse mesmo povo se afirme e se reafirme na universidade. Esse povo colorido, agora, está também no nosso curso, o qual historicamente nunca foi dos mais populares. Junto com toda a estudantada da UFRN, esses e essas estudantes lutam cotidianamente para se manterem na universidade. Uma das grandes dificuldades das e dos estudantes de direito é conciliar a vida acadêmica com trabalho e estágios. Nós temos uma quantidade enorme de projetos e programas de pesquisa e extensão, nos quais o protagonismo estudantil é latente, muitos deles nacionalmente reconhecidos; entretanto, sempre foi difícil conseguir bolsas ou monitorias remuneradas para que essas/es estudantes não precisassem parar de se dedicar à vida acadêmica. Atualmente, então, a situação está ainda mais complicada, principalmente em razão dos cortes que o governo federal anunciou este mês.

Os cortes na educação fazem parte de um conjunto de medidas do ajuste fiscal, pelo qual o orçamento anual será reduzido em quase 70 bilhões de reais. Sabemos que a crise econômica global incide nessa conjuntura, pois, enquanto o país conseguia manter altos seus índices de crescimento econômico, se garantia as políticas sociais necessárias. Entretanto, devemos assumir uma postura crítica quanto à opção política do governo de atingir mais fortemente os setores estratégicos e basilares da sociedade, mais necessitados de incentivos e investimentos. Sabemos que a taxação de grandes fortunas poderia ser uma opção, mas não é por onde se orienta a política atual do governo, e quem acaba sentindo com mais impacto a crise são os segmentos mais frágeis economicamente: trabalhadoras/es assalariados, pensionistas, aposentadas/os, estudantes. É só perceber de onde partiu mais da metade dos cortes: o Ministério da Educação foi o terceiro orçamento mais reduzido, atrás apenas dos Ministérios das cidades e da saúde.

Nosso papel enquanto estudantes e diretamente atingidos com essas medidas é o de lutar para que nossos direitos conquistados no último período sejam mantidos e, além disso, os avanços continuem! Afinal, quando se corta em 50% a verba dos investimentos, são vários os projetos e medidas que são negligenciados, os quais poderiam aprimorar a educação pública e melhorar a vida da/o estudante. Sabemos que temos cerca de 55 obras em andamento na universidade, a estrutura precisa ser melhorada e precisamos de salários dignos para servidores e professores. Para além disso, em nosso curso, necessitamos a permanência de um corpo docente qualificado, o qual pressupõe destinação de verbas para contratação de profissionais com dedicação exclusiva e especializadas/os.

Nós, do Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti, representando as e os estudantes do curso de direito da UFRN, repudiamos quaisquer medidas que atentem contra os avanços estabelecidos no último período e representem retrocessos no ensino superior de nossa universidade e de nosso país e nos comprometemos a lutar, junto com vocês, para que continuemos a ser um curso qualificado e de referência. Mas, para isso, precisamos do esforço de todas e todos para conseguirmos pautar com eficiência nossas reivindicações. Precisamos, para além dessa nota, de atuações concretas.

Já iniciamos a nossa atuação quando da participação do 54º Congresso da União Nacional dos estudantes (UNE), onde debatemos os cortes na educação e levantamos essa bandeira, problematizando o contexto da nossa universidade e, também, do nosso curso. Precisamos, agora, agir com mais afinco, traçando linhas de atuações institucionais e não-insitucionais, de forma a estabelecer um diálogo com a reitoria e mobilizando também para a luta na rua. Estaremos sempre nos articulando com outros centros acadêmicos e com as/os estudantes para pensarmos nossa movimentação. Quando voltarmos às aulas, promoveremos uma Assembleia para fazer um repasse de como andam as articulações e pensarmos sobre as futuras que poderemos fazer. Não podemos nos cansar de lutar pela manutenção de nossos direitos; afinal, eles devem ser conquistados permanentemente por nós. Por mais difícil que possa parecer a transformação, nós devemos perseguí-la, pois

ATÉ QUE TUDO CESSE, NÓS NÃO CESSAREMOS!

Mensagem da Turma de Direito 2015.1 a Jadilson


O Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti (CAAC) do curso de Direito da UFRN presta as condolências e o desejo de força aos familiares e amigos de nosso colega de curso Jadilson. Amigos e colegas de turma escreveram uma mensagem para homenagear Jadilson. Segue a mensagem dos amigos e colegas de turma de Direito 2015.1:

A turma do curso de Direito 2015.1 está consternada com a perda de seu colega de classe. Em pouco menos de dois meses de convívio diário pode perceber a pessoa correta, fraterna e amiga que era Jadilson. Nos sensibilizamos e solidarizamos com os familiares e amigos mais próximos por essa perda brutal e repentina, mas cremos que ele encontrará um lugar justo na eternidade. Nos entristecemos e nos despedimos com dor de nosso amigo, estarrecidos mas com a lembrança de sua cordialidade costumeira. Não tivemos oportunidade de um maior estreitamento de laços, nesse espaço de tempo tão curto, mas temos ciência da perda irreparável que todos sofremos agora.

Siga em paz, Jadilson.

Turma de Direito da UFRN 2015.1

Sobre a Situação de Caos do Sistema Penitenciário do RN


Diante do “caos” instalado e dos áudios aterrorizantes sobre a situação em Natal, não tenho como ficar calada…

Quem me conhece sabe que faz um tempinho que ando pesquisando, trabalhando e procurando fazer minha parte no que diz respeito à população carcerária. E, diante de tudo que venho presenciando nesta pequena jornada pelos presídios do RN, posso constatar que a situação de hoje não me surpreende. Ela só demonstra o que vem sendo pedido faz tempo… Ah, como faz!

Foi com com a greve de fome do ano passado que realmente percebi a assustadora situação de abandono do sistema carcerário potiguar. Diretores são como deuses… Passam por cima de inúmeros direitos, garantias não só dos apenados como também dos familiares. A violência cíclica que ocorre no cárcere é chocante. Mas mesmo assim manifestações foram feitas antes do estopim de hoje. Diversas…

Semana passada foi o ponta pé inicial pedindo a mudança na direção de alcaçuz. Praticamente tudo foi tentado pelos apenados. Desde conversas até a representação por meio dos seus familiares na SEJUC. Mas só agora que a população civil tomou noção dos pedidos que há anos estão em pauta! Por que só se percebe os presos quando estes agem com violência? Por que exigimos que eles sejam pacíficos quando nós patrocinamos e nos fingimos cegos para tudo permeia a situação? Não queremos ver! Eles estão errados…

Sempre, ne? Mas que tal parar e pensar que antes das violações que eles nos provocam (direta ou indiretamente), eles mesmo já tiveram centenas de direitos violados que nós jamais iremos ter…

Só espero que não precisemos esquecê-los tanto para acontecer de novo o que está acontecendo hoje: um sopro de indignação.

*Texto escrito pela aluna do Curso de Direito da UFRN, Maria Beatriz Maciel – 5º Manhã.

#60Anos Documentos da Ditadura Militar sobre o CAAC


Os documentos em referência podem ser encontrados no Acervo documental da Comissão da Verdade da UFRN, originários do Arquivo Nacional – Agência do Distrito Federal.

Os documentos acima se referem a produções de grau confidencial emitidos por órgãos de vigilância da Ditadura Militar sobre o I e II Fórum de Debates do Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti (CAAC), realizados nos meses de março e setembro de 1982.

Neste ano, o CAAC retomava suas atividades desde sua extinção em 1974. Um dos Informes foi emitido pelo Ministério da Marinha, Comando do 3º Distrito Naval de Natal e o outro pela Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Educação. Apesar do país, naquela época, já vivenciar um clima de abertura politica iniciada em 1979, tais relatórios procuraram descrever os posicionamentos políticos adotados pelos palestrantes dos eventos, bem como suas filiações partidárias, como forma de captação de informações da Universidade e subsidio ao Governo Militar. Nesta época, exercia a presidência do CAAC o aluno Francisco Honório de Medeiros Filho.

#60Anos O DAAC SOB JULGO DO ARBÍTRIO IMPLANTADO COM O GOLPE MILITAR DE 1964


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Ofício de cassação e intervenção no DAAC. Fonte: Acervo da Comissão da Verdade da UFRN.

O DAAC SOB JULGO DO ARBÍTRIO IMPLANTADO COM O GOLPE MILITAR DE 1964

Juan de Assis Almeida

O ano de 1964 representou para a historiografia do movimento estudantil e da própria UFRN a consagração do Diretório Acadêmico Amaro Cavalcanti (DAAC) enquanto espaço de luta e representatividade do corpo estudantil de Direito-UFRN. As experiências dos anos anteriores faziam das eleições do DAAC espaço de intenso divisionismo e de profundas e apaixonadas discussões. Nessa época, exercia a presidência do DAAC o acadêmico Silvio Procópio.

As disputas hegemônicas presentes no contexto internacional e local, notadamente a URSS versus EUA e Aluízio Alves versus Dinarte Mariz, também reverberavam nos confrontos estabelecidos no DA – Faculdade de Direito. Registra-se que grupos políticos com posicionamentos ideológicos conservadores e tradicionais se sobressaiam em tais disputas, mas não diferente, pautavam suas ações no enfrentamento dos problemas universitários e da classe pobre e trabalhadora do país.

Neste período, várias alunas e alunos do Curso se inseriam em projetos educacionais de emancipação política e social, como nas ações de alfabetização pelo sistema Paulo Freire no interior do RN e na famosa campanha de alfabetização de crianças e adultos “De pé no chão, também se aprende a ler” coordenada pelo então prefeito de Natal, Djalma Maranhão. Além do Serviço Universitário de Ajuda fraterna, ação desenvolvida por estudantes de vários cursos da UFRN em comunidades sem assistência do poder público como Mãe Luiza, Rocas e Santos Reis.

Como as ações se baseavam na emancipação, empoderamento e conscientização política das classes historicamente marginalizadas da cidade, quando do Golpe, foram logo chamadas de atividades “comunistas” ou como os órgãos de repressão da época falavam “comunizantes” numa tentativa de justificar seu aniquilamento e perpetrar violações e perseguições político-ideológicas. Setores pró-golpe em Natal encontraram espaço perfeito para suas medidas de mitigação do protagonismo estudantil e florescimento cultural ora vivenciado.

Pois bem, o Golpe de 1964 operou-se no dia 1º de abril, apesar dos acontecimentos de deposição do presidente João Goulart terem ocorridos no eixo sul-sudeste do país, os efeitos foram imediatamente sentidos nesta capital. A cidade por ser ainda muito pequena, acordara tenebrosa!! A população atônita via soldados com metralhadoras e tanques desfilando ostensivamente pelas ruas e aos poucos as notícias vinham chegando por meio da rádio Mayrink Veiga. Os natalenses perplexos, trancafiados em suas casas, ouviam as informações…

Os jornais se viram apreensivos com os acontecimentos, um deles chegou a fazer duas capas, uma a favor do golpe e outra contra, até que a situação se delineasse para um dos dois lados, findando apoio ao golpe, quando declarado pelo Governador do Estado, Aluízio Alves. De lado oposto, se comportou o prefeito Djalma Maranhão, ao reafirmar sua filiação ao presidente deposto, instalando na sede da prefeitura de Natal o chamado “QG da legalidade e resistência”, até ser violentamente retirado do Palácio Felipe Camarão e preso no 16 RI.

Entre os dias 01 a 15 de abril de 1964 uma série de ações repressivas seriam visualizadas no DAAC, nos demais diretórios e contra os estudantes, a seguir algumas delas: Invasão da sede do RU-DCE por tropas do Exército chefiadas pelo Major Estevam Mosca, com a finalidade de dissolver assembleia estudantil extraordinária; prisão dos estudantes de direito Marcos Guerra, José de Ribamar Aguiar e Pedro Cavalcanti (participantes do projeto de Paulo Freire); proibição de reuniões estudantis de caráter “político ou assemelhados” nas unidades universitárias e a cassação do mandato do presidente do DAAC, aluno Silvio Procópio, com a nomeação do interventor Carlos Borges de Medeiros (aluno), por determinação da General Omar Chaves da Guarnição Militar de Natal.

Outros episódios se seguiram como perseguições às alunas de Direito Terezinha Braga e Berenice Freitas; prisões dos alunos Eurico Reis e dos ex-alunos e membros do DAAC, Evlim Medeiros, Hélio Vasconcelos e Paulo Frassinete; instalação da Comissão do Estado de Inquérito, Comissão de Investigações da UFRN e o Inquérito do 7º Regimento de Obuses para apuração de crimes contra “a segurança nacional, o regime democrático e a probidade da administração pública” e por “condutas subversivas” de alunos da UFRN; prisão do aluno Nei Leandro de Castro pela autoria de publicações literárias consideradas comunistas; fuga do aluno Danilo Lopes Bessa e exonerações políticas proferidas pelo governador Aluízio.

Não só o movimento estudantil foi afetado, a diretoria da Faculdade de Direito se viu numa situação atentatória. A vida acadêmica também passava a sofrer intervenção militar… O professor Otto Guerra acreditando numa possível soltura do prof. Luiz Maranhão Filho, preso e torturado barbaramente pelo Exército brasileiro, adiava a realização do primeiro concurso público realizado na UFRN para professor da cátedra de Teoria Geral do Estado, já que Maranhão Filho era um dos candidatos inscritos. A prisão se alongou por meses e o professor nunca mais retornou a cidade, após viver em clandestinidade, foi morto em 1973 pela polícia política do Rio de Janeiro e depois incinerado na Usina Cambhayba no município de Campos dos Goytacazes- RJ.

A partir de então um clima de medo, temor e perseguição passou a acompanhar os brasileiros. As eleições para o DAAC passaram a ser todas indiretas, infiltrantes eram colocados, estrategicamente, nas salas de aula e espaços da administração, a vigilância e a repressão passou a ser a política pública institucionalizada e mais bem operada pelo governo militar… Gerações, sonhos e mudanças foram abortadas! Jovens idealistas sofreram na pele o expurgo e autoritarismo…

Anos depois, a Faculdade e o DAAC foram extintos e o prédio da Ribeira cedido para a Secretaria de Segurança. A ditadura militar cada vez mais desestruturava e tentava apagar a história do movimento estudantil e da própria Universidade. Panorama tão bem compreendido e ressoado pelo professor de Constitucional Edgar Barbosa que parafraseando Manuel Bandeira proclamou: “Vão demolir esta casa / Mas meu quarto vai ficar / Não como forma imperfeita / Neste mundo de aparências: Vai ficar na eternidade, Com seus livros, seus quadros, Intacto, suspenso no ar!”

Obras consultadas:

Faculdade de Direito de Natal: Lutas e Tradições (1949-1973). Gileno Guanabara de Souza.

1964: Aconteceu em Abril. Mailde Pinto Galvão.

Anistia 20 anos (1979-1999): Um resgate da luta no Rio Grande do Norte. Sindicato dos Bancários do RN e Câmara Municipal de Natal.

O ocidente acadêmico do Curso de Direito da UFRN


O ocidente acadêmico do Curso de Direito da UFRN

Nos últimos anos notamos um considerável aumento quantitativo na produção científica em Curso de Direito. Símbolo desta fase é o florescimento de espaços para abrigar os trabalhos acadêmicos. Em 2010 tínhamos apenas um periódico local disponível para os estudantes da graduação publicarem seus estudos. Em 2014 alcançamos a relevante marca de cinco revistas, felizmente detentoras de perfis editoriais diversificados e, em sua maioria, produzidas com a colaboração monumental dos próprios estudantes.

Este movimento evolutivo, como dificilmente não seria, vem se desenvolvendo com arestas a ser aparadas. Apontá-las e discuti-las é essencial para que amadureçamos o ambiente acadêmico e desenvolvamos cada vez mais a produção científica do Curso de Direito da UFRN.

Situação a causar incômodo e constrangimento aos estudantes é a usual conduta de certos professores da instituição que condicionam suas orientações a artigos científicos à necessidade de que eles, professores, figurem como autores da produção científica dos estudantes. Não se trata de situação em que há uma divisão da produção escrita do trabalho. Os professores não escrevem, não pesquisam especificamente o tema para desenvolver a idéia da tese, mas cobram pela orientação acadêmica o preço da autoria. Dentre os poucos argumentos apresentados para fundamentar a postura, cita-se a maior facilidade com que o artigo pode ser publicado caso o docente figure entre os autores.

Entendemos que a conduta dissolve a diferença entre a orientação e a autoria do trabalho científico, desrespeita a autonomia acadêmica do estudante e ocasiona um modelo de produção e reconhecimento do saber hierarquicamente dependente da figura do professor. É certo que a moderna discussão no âmbito da teoria do conhecimento – epistemologia-lançada por autores como Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses impôs um valioso desafio à questão da “autoria dos saberes”.

Ao superarmos a elaboração do conhecimento como processo que se dá puramente por operações da consciência de homens e mulheres, assumindo-o como processo movido por interações externas e reflexões internas ante os diferentes saberes que habitam o ambiente, podemos reconhecer ser o conhecimento, incontornavelmente, uma produção coletiva¹.

Uma produção monográfica (artigo científico, dissertação, tese) deve ser enxergada, em verdade, como um produto construído poligraficamente. Temos de ter consciência que sempre partiremos de ideias e saberes outros para produzirmos nossas impressões próprias sobre os temas que queremos investigar.

Com isso, no entanto, não pretendemos retirar o componente individual da produção científica. É dizer, por mais que invariavelmente nos orientemos e nos espelhemos em ensinamentos outros, há de ser preservado o espaço para inventividade própria, para a leitura particular que se desenvolve dentro da intersubjetividade. E para além da concessão, por parte dos orientadores, do espaço para que essa inventividade se desenvolva, deve ser concedido o espaço para que tal inventividade seja reconhecida como elaboração própria do estudante. O estudante deve ser reconhecido como autor, assim como o professor deve ser reconhecido como orientador, caso efetivamente desempenhe seu papel de oriente à realização do trabalho.

O diferente olhar para o processo em que o conhecimento é vivificado não pode dar espaços para hierarquias epistemológicas ou acadêmicas que terminam por invisibilizar o valor da produção discente. A visão do saber construído cooperativamente, intersubjetivamente, opera, muito pelo contrário, uma erosão nas hierarquias a partir de onde o conhecimento se produz. O resultado desta erosão é a emergência dos outros protagonistas do cenário. Eliminam-se as escalas de saber e sublevam-se as diferenças entre os saberes dos diferentes a(u)tores, tornando o acontecimento da elaboração do conhecimento um momento de profícua interação de saberes (por Boaventura, Ecologia de Saberes).  Deixa-se de enxergar o professor, o mestre, como detentor de um conhecimento superior, reconhecido tão somente em razão do lugar de onde se fala, para passar a compreendê-lo como um conhecimento diferente, diverso daquele que detém o estudante (aponte-se que não usamos aqui a-luno). É lamentável que periódicos, congressos e outros meios de divulgação científica selecionem os trabalhos que publicizam dando mais importância à posição que os autores ocupam do que ao valor que o trabalho ou apresentação encerra em si. Antes dos professores confortavelmente utilizarem tal prática como justificativa para aporem seus nomes como autores, deveriam utilizar seus espaços como parte do corpos editorais para alterarem o este proceder.

A perda da posição hierárquica não deve ser considerada uma atribuição valorativa inferior ao papel do professor. O pretendido é que a figura do docente não obscureça ou oprima academicamente a voz dos outros sujeitos do processo de construção do conhecimento, mas sim sirva como amplificadoras de vozes que devem ser ouvidas cantar não só com maior altura, mas também com um som próprio e cada vez mais afinado.

Túlio de Medeiros Jales

Estudante do 10º Período do Curso de Direito da UFRN

1 Esta acepção intersubjetiva da forma de produção do conhecimento fundamenta-se na desconstrução de um dos referenciais mais caros à formação da ciência moderna: a distinção entre sujeito cognoscente (o indivíduo que conhece)e o objeto de seu conhecimento. Passamos a ser orientados não mais pela relação passiva sujeito-objeto, em que a verdade poderia ser encontrada pela consciência dos sujeitos (a certeza do pensamento pensante), e caminhamos em direção à relação sujeito-sujeito, em que reconhece-se que não se é plenamente livre para assujeitar o mundo pois estamos necessariamente interligados em uma comunidade de sentidos dispostos de forma mais ou menos consensuada.